07 Setembro 2009

Poderes dos Mantras



Será que alguém ainda não ouviu falar nos segredos e mistérios que envolvem os mantras?

Fala-se muito que o mantra, para ser legítimo, deve ser transmitido por um guru ou mestre qualificado. Fala-se também que deve ser individual, o que significaria que cada pessoa tem seu próprio mantra, uma espécie de mantra pessoal. Mas o que se fala mesmo, é que os mantras são palavras secretas e poderosíssimas.

Há várias histórias relatando os poderes excepcionais dos mantras, mas há pouquíssimas esclarecendo a realidade por trás desses fenômenos. Por isso, estabelece-se uma ligação de mistério e de segredo, como se o verdadeiro mantra devesse ser mantido a sete chaves e somente ser revelado a alguém muito especial e preparado para receber essa transmissão.

Essa coisa do poder é sempre muito delicada. Mas, os "poderes" que envolvem os mantras não deveriam ser associados a realizações externas de desejos pessoais, por mais valorosos e dignos que esses desejos possam ser. Esse é sempre um aspecto limitador do mantra, como o é para as demais atribuições confiadas ao Yoga.

Segundo Patañjali, os poderes são perfeições no estado de vigília, ou do mundo ordinário de causas e efeitos, mas eles constituem obstáculos no estado do conhecimento supremo.

Certa vez, perguntaram a Ramana Maharshi, se era verdade que os yogis tinham mesmo esses poderes meio mágicos.

Ramana resumidamente disse que sim, que era verdade, mas que nunca e nem niguém pedisse a ele nenhuma demonstração, pois ele não tinha, e nem queria, poderes. Para Ramana, esse parecia ser um assunto nada atraente...

Por sua vez, Swami Tilak dizia que os mantras não são secretos, são apenas sagrados.

O sábio Patañjali nos ensina que os poderes nunca são a meta, mas apenas pequeninas vias de reconhecimento.

E, mais uma vez, a sabedoria de Ramana Maharshi flui com muita precisão, quando ele diz que todos os grandes reis e estadistas, de tempos passados e de agora, sempre lutaram pelo poder, tentando governar outros, quando bem no seu íntimo não conseguem governar a si mesmos.

Segundo Ramana, o verdadeiro poder pertence somente àquele que sabe governar a si mesmo, seguro de que aquilo que não está dentro de si, não pode vir de fora.

De forma semelhante, os mantras só podem ser considerados poderosos quando vibram de encontro ao verdadeiro poder já instalado do lado de dentro do ser. Caso contrário, não passam de superstições que exacerbam ainda mais a ignorância, a intolerância e o preconceito.

Por um ângulo mais pessoal, penso que falar sobre poderes que racionalmente beiram a ficção sempre confere um ar de mistério e de descrença em relação a algumas práticas do Yoga, incluindo as mântricas.

Ao mesmo tempo, essa tendência não traz nenhuma informação nova e, a longo prazo, somente serve para afastar as pessoas lúcidas e inteligentes, que buscam o Yoga para descobrir poderes mais "simplezinhos", como este aqui:

Se conhecer melhor para viver melhor, respeitando e convivendo pacificamente com todos os demais seres e a natureza.

Se pudéssemos viabilizar apenas essa realidade, esse seria, sem dúvida, o maior e mais poderoso de todos os poderes imagináveis, pois ao invés de celebrarmos os supostos milagres advindos dos poderes mântricos, celebraríamos apenas uma vida mais justa e feliz para todos.

Nas palavras sempre lúcidas do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh:

"Milagre não é andar sobre as águas ou nas nuvens, mas dar cada passo consciente".

29 Agosto 2009

Sagrado olhar



Toda vez que olhamos para alguma coisa ou alguém, estamos entrando em contato com uma dimensão que engloba o reino do sagrado. Praticamente tudo pode ser visto como sagrado ou como profano: só depende do olhar.

Fora de nós, as pessoas e suas atitudes, os objetos e suas utilizações, a própria natureza, são apenas o que são: nem mais nem menos. As atribuições, somos nós quem as ofertamos.

- É preciso ter olhos para ver, minha querida! , diziam meus pais desde minha mais tenra idade.

De fato, quando criança, algumas vezes meus olhos chegaram a arder e a lacrimejar, de tanto fixá-los naquilo que me chamava a atenção. Era uma coisa de olhar prolongadamente que, guardadas as devidas proporções, carrego comigo até hoje, embora de forma bem mais amenizada, treinada e educada.

O olhar é a única coisa que verdadeiramente suprime a necessidade das palavras e é capaz de transformar o silêncio em divina melodia.

O olhar exprime o fluxo da alma e revela a essência das ações.

Especialmente no Yoga, o olhar tem uma função muito especial e sensível: a de fazer despertar em nós o significado do profundo e do sagrado em todas as coisas, em todos os seres.

Simbolicamente, o Yoga também é designado apenas para aqueles que têm "olhos para ver".

É preciso ter "olhos que queiram ver" para se poder enxergar a essência e a sabedoria do Yoga, bem como da própria vida, em toda sua plenitude e beleza.

Sagrados sejam nossos olhares.

28 Agosto 2009

O fascinante e inexplicável sensível-invisível



Você já ficou contente sem um motivo especial, sem uma explicação racional, sem se lembrar de ter feito nada de diferente para isso?

Em momentos conturbados de sua vida, quando tudo parecia estar dando errado, inexplicavelmente você se sentiu de bem consigo mesmo e com uma certeza inabalável de que tudo se acertaria da melhor maneira possível?

Experimentou uma alegria interior gostosa, que veio não se sabe de onde, e que lhe deu forças para continuar, para persisitir e insistir em achar as melhores soluções, sem se cansar ou se abater?

Já vivenciou um estado de intuição positivamente confiante, quando todo mundo insistia em dizer que pior do que estava não dava para ficar, que você já estava emocionalmente perturbado, mentalmente desvairado, vivendo fora da realidade, e você sabia, com uma convicção que nunca vai realmente conseguir explicar, que tudo ía dar certo, muito certo, e que essa sua certeza era só uma questão de tempo para se materializar no aqui e agora?

Pois esse alegre mundo invisível, de fascinantes certezas que não se explicam, não é menos real do que o mundo das explicações lógicas e das conjecturas mentais racionais. É apenas mais sensível e menos reproduzível, só isso! Ou seria tudo isso?

Pensando bem, que diferença faz? Eu não vou conseguir explicar mesmo!!!

Mas, uma coisa eu sei: minha prática de Yoga faz com que eu me sinta assim, desse jeitinho: fascinantemente inexplicável. Ou seria inexplicavelmente fascinante?

Vichi!!! Basta!!! Namaste!!!

27 Agosto 2009

Espelho, espelho meu: existe alguém mais...do que eu?



É claro que sim! Seja lá o que for que você pense e diga para completar os três pontinhos dessa famosa pergunta.

É a pergunta clássica nos clássicos casos de baixa auto-estima. Mas essa é, também, uma pergunta fundamental para compreendermos essa delicada e essencial questão.

Ela nos revela a importância da imagem, mais especificamente da auto-imagem, formada a partir do ponto de vista de um outro: mesmo que esse outro seja um espelho, mesmo que esse espelho seja uma representação, mesmo que saibamos que espelhos não falam e veja bem: mesmo quando esse espelho é apenas você!

A auto-estima, de uma forma ou de outra, está sempre intimamente ligada à auto-imagem, ou à maneira como você enxerga a si mesmo. Mas, deveria estar ligada aos processos de percepção, de sensibilização, de autoconhecimento e de auto-aperfeiçoamento do ser. Por isso, é importante reconhecer que:

Fazer uma imagem de si mesmo não é a mesma coisa que perceber, sentir e conhecer a si mesmo.

Dentro da filosofia do Yoga, todas as imagens servem infalivelmente para uma constatação:

Somos pessoas frágeis e nos decepcionamos profundamente quando não podemos parecer bem aos olhos dos outros.

Fabricar uma imagem que você gostaria que os outros tivessem de você, ou que você gostaria de ter de si mesmo, é no mínimo duplamente desgastante e decepcionante, pois além do trabalho de construí-la, você terá que ter o trabalho de destruí-la - isso se alguém não fizer isso antes!

De acordo com os dizeres dos autênticos mestres de Yoga, o corpo, que é a porta de entrada do mundo sensorial do qual as imagens são a constante máxima, merece e deve ser tratado com respeito e dedicação para manter-se sempre saudável e produtivo.

Iyengar costuma dizer que o corpo é seu templo, que as posturas são suas preces e que praticar é o seu mantra.

Ao vivenciar o Yoga de uma forma mais subjetiva e simples, onde o corpo passa a ser seu templo, as posturas, suas preces, e a prática, seu mantra, você logo irá começar a perceber e a sentir que sua força e luz interiores são muito mais poderosas do que qualquer opinião ou imagem que possam ter de você. Mesmo que sejam as suas próprias!

Procure lembrar-se de que se aceitar e ser solidário consigo mesmo, apesar de reconhecer todos os seus condicionamentos e limitações, é o primeiro passo para a tão almejada mudança (seja ela qual for), para aceitar os outros como são e não como gostaríamos que fossem, para o cultivo do respeito ao próximo, para a aceitação da diversidade no mundo e para a construção de uma cultura de paz.

Ah, e pode continuar se olhando no espelho à vontade! Quem sabe, ele também não seja mágico?

Pois é...

25 Agosto 2009

A nobre arte do silêncio



A arte do silêncio interior chama-se Antar Mouna. É quando a mente entra num estado de aquietamento, de conforto sem conflitos, sem discussões nem argumentações. A mente simplesmente fica quietinha e relaxada, sem necessidade de se justificar.

Ficar em silêncio é essencial, embora pareça ser uma tarefa hercúlea, praticamente impossível de se realizar. Podemos até ficar sem pronunciar palavras ou emitir sons durante um certo tempo, mas a cabeça, essa não pára nunca de tagarelar. Por isso, ficar com a boca fechada, sem falar, não significa a mesma coisa que praticar a nobre arte do silêncio.

É extremamente comum confundir-se o não ter nada a dizer, seja por desmotivação, por preguiça, por incapacidade intelectual, por intimidação, por timidez, por falta de argumentos ou mesmo por traumas e distúrbios, com ficar em silêncio por opção, sensibilidade e inteligência.

Fazer silenciar pelo uso da força e da admoestação, bem como pelo abuso de poder, é uma das formas mais brutais de violência e de cerceamento da liberdade de expressão. Por outro lado, falar tudo o que se pensa, sem uma triagem reflexiva contextual, concomitante com a situação e o momento, não é ser autêntico, carismático, sincero e muito menos verdadeiro: é apenas uma outra forma (ao que tudo indica, mais aceita na nossa sociedade tão carente de gentilezas e de atitudes éticas) de grosseria e violência.

Antar Mouna parece nascer no "descanso" do cérebro e atingir as camadas mentais, em seus vários níveis e profundidades, predispondo-as à manutenção do silêncio. Mas Antar Mouna também, e especialmente, nasce no sentimento do coração, se espalha pelo restante do corpo e chega à mente, de maneira natural, voluntária e sem imposições. Isso porque, no Yoga, não existe uma divisão explícita entre corpo e mente, mas tão somente a possibilidade de se vivenciar e sentir a fluidez entre um e outro.

Do mesmo modo, som e silêncio não devem ser vistos como antagônicos ou radicalmente separados. O silêncio, em si, não supera a força das palavras que carregam idéias e significações, assim como palavras vãs não conseguem suplantar o fecundo e profundo silêncio que vem do âmago do ser. Porém, é muito importante perceber que, enquanto houver imposições, o essencial silêncio interior não pode existir, assim como a sabedoria das palavras não pode se manisfestar.

Silêncio é liberdade.

Som é liberdade.

Palavra é liberdade.

Entre calar e falar, valorize e aprenda com os dois. Mas, naquele momento crítico de indecisão, de dúvida cruel, onde não se tem a menor idéia do que dizer, vale lembrar-se do ditado popular:

"Em boca fechada não entra mosquito".

A bem da verdade, não entra nem mosquito nem nada mais! Mas, o interessante nesta analogia, é observar não especificamente o ato de "não entrar", mas o de "não permitir sair".

Concordo que este é apenas um dispositivo de emergência até simplista, porém útil, para que o indesejável "não saia" impensada e abruptamente sob a forma de palavras, que podem vir a ferir profundamente um outro ser humano. Mesmo porque, nem sempre quem cala, consente. Algumas vezes, quem cala está apenas exercendo a capacidade de ser consciente.

Fica aqui a sugestão:

PRATIQUE SILÊNCIO!

24 Junho 2009

Minha opinião sobre Yoga, Fé e Saúde?


A fé é uma sabedoria, uma espécie de inteligência inata que todos temos.

A fé não precisa de comprovações nem de explicações, pois ela simplesmente é.

Fé é vida na sua essência.

A prática do Yoga desenvolve a sensibilidade, o refinamento, a vivência da fé em sua profundidade.

Considero o Yoga um caminho de fé, mas não um caminho de crenças.

Fé e crença são coisas diferentes, embora costumem ser corriqueiramente confundidas:

A fé não depende de se acreditar ou não em algo e/ou alguém. Já a crença depende da premissa de se acreditar que alguma coisa seja verdadeira (ou falsa), mesmo que pareça não fazer o menor sentido e se alicerce em outras premissas, que podem ser equivocadas. Os grandes absurdos criminosos da história humana se sustentam sob os argumentos de várias crenças, entre elas as religiosas.

Considerando essas colocações, penso que a vivência da fé pode ajudar no restabelecimento da saúde, pois fé e vida são sinônimos. Se existe amor pela vida, existe fé. Mesmo que não se creia num Deus ou num outro conceito qualquer.

A fé persiste apesar das nossas crenças.

No fundo, a fé é como o amor: se conseguir explicar, talvez não seja.

13 Junho 2009

Felicidade sintomática


Segundo os antigos yogis, a felicidade mora nas profundezas de uma caverna, que eles chamam simplesmente de Coração ou Anahata.

Talvez essa colocação explique por que tanta gente diz que a felicidade não pode ser geograficamente encontrada: pois é um estado interno! E esse Coração, com maiúscula, não é o mesmo coração físico, com minúscula, o orgão.

Daí, a gente acaba concluindo que, além de interior, a felicidade também é invisível. Pelo menos, para olhos comuns, fisiologicamente comuns, assim como os meus.

Talvez, não seja de todo errado dizer que a felicidade é um fluxo interior invisível, mas que se pode sentir, assim como as águas fluindo de um rio.

Agora, pense: mas como é que a gente sai tão fácil desse fluxo, uma vez que ele parece ser uma coisa natural, uma natureza que nós temos plantada em nós desde sempre?

Talvez, também não seja errado dizer que, para que possamos modificar algumas condições limitantes e desgastantes de nossas vidas, devemos retomar esse fluxo, voltar a fluir...

Quando nos desvíamos desse fluxo chamado felicidade, conhecemos coisas como o sofrimento, o arrependimento, a dor.

Mas aí vem de novo a dúvida: como é que a gente sai tão fácil desse fluxo? Como é que a gente de repente se perde e pára de fluir?

É, porque esse fluir me parece ser tão natural, como uma natureza plantada dentro de nós desde sempre!

(É, eu repeti mesmo, de propósito!)

Não admira que alguns digam que o Paraíso é como um imenso jardim: tão natural, tão bucólico, tão romântico... Mas, com um rio fluindo no meio, é claro! E com um barco, que é pra gente usar caso não saiba nadar, caso não se lembre de como fluir!

Nesse momento Alice in Wonderland, eu deveria ter dito o seguinte:

Talvez, a gente se perca tanto desse fluxo chamado felicidade por não sabermos sentir os nossos mais profundos desejos, por não sabermos o que realmente mais queremos.

Você sabe o que realmente mais quer na vida? Ou você fica confuso e com medo, simplesmente "querendo sem querer" de verdade?

Esses vacilos conflitantes tiram a gente do rumo certo, desviam os nossos verdadeiros sentimentos e instalam um sistema de insegurança.

Nos transformamos em terroristas de nós mesmos e sabotamos a nossa própria felicidade.

É claro que os outros contribuem, e muito, mas não tanto a ponto de destruir esse manancial interior por onde flui a mais pura felicidade.

Por isso, quando você estiver em dúvida quanto ao que realmente mais quer, quando não estiver conseguindo sentir qual a melhor direção a seguir, quando seus objetivos parecerem estar se distanciando cada vez mais de você, quando até sua prática de Yoga parecer não fazer mais sentido (e isso já aconteceu inúmeras vezes comigo), espero que possa lembrar-se de que existe uma caverna aí dentro, esperando para revelar a luz e fazê-la brilhar tão intensamente que não lhe restará outra saída a não ser sorrir. Sorrir muito, da mais pura felicidade.

Talvez, também não seja errado afirmar que o sorriso espontâneo é um sintoma visível dessa invisível, mas nem por isso menos real, felicidade.

26 Abril 2009

A cura


Em uma de suas frases maravilhosas, Iyengar diz:
"O Yoga nos ensina a curar o que não precisa ser suportado e a suportar o que não pode ser curado."

E isso não somente no campo físico, mas em todas as áreas da vida.

Talvez, este seja o momento de considerar a possibilidade de você estar sofrendo desnecessária e fantasiosamente ou, por outro lado, a possibilidade de estar mascarando uma revolta contida e ligada à não-aceitação de sua própria condição.

Reflita e tome as rédeas de sua vida de forma firme e, ao mesmo tempo, flexível, curando o que você não tem que suportar e aceitando aquilo que, pelo menos por enquanro, ainda não dá pra curar. Mas perceba, também, que Iyengar não nos fala em desistir: de tentar, de buscar, de aguardar, de perseverar.

As palavras de Iyengar não são de resignação!!! São de transformação!!!

Lembre-se bem disso antes de se conformar com a vida, com a sua vida.

Fluir & deixar fluir: esta é a arte, esta é a cura.