
Será que alguém ainda não ouviu falar nos segredos e mistérios que envolvem os mantras?
Fala-se muito que o mantra, para ser legítimo, deve ser transmitido por um guru ou mestre qualificado. Fala-se também que deve ser individual, o que significaria que cada pessoa tem seu próprio mantra, uma espécie de mantra pessoal. Mas o que se fala mesmo, é que os mantras são palavras secretas e poderosíssimas.
Há várias histórias relatando os poderes excepcionais dos mantras, mas há pouquíssimas esclarecendo a realidade por trás desses fenômenos. Por isso, estabelece-se uma ligação de mistério e de segredo, como se o verdadeiro mantra devesse ser mantido a sete chaves e somente ser revelado a alguém muito especial e preparado para receber essa transmissão.
Essa coisa do poder é sempre muito delicada. Mas, os "poderes" que envolvem os mantras não deveriam ser associados a realizações externas de desejos pessoais, por mais valorosos e dignos que esses desejos possam ser. Esse é sempre um aspecto limitador do mantra, como o é para as demais atribuições confiadas ao Yoga.
Segundo Patañjali, os poderes são perfeições no estado de vigília, ou do mundo ordinário de causas e efeitos, mas eles constituem obstáculos no estado do conhecimento supremo.
Certa vez, perguntaram a Ramana Maharshi, se era verdade que os yogis tinham mesmo esses poderes meio mágicos.
Ramana resumidamente disse que sim, que era verdade, mas que nunca e nem niguém pedisse a ele nenhuma demonstração, pois ele não tinha, e nem queria, poderes. Para Ramana, esse parecia ser um assunto nada atraente...
Por sua vez, Swami Tilak dizia que os mantras não são secretos, são apenas sagrados.
O sábio Patañjali nos ensina que os poderes nunca são a meta, mas apenas pequeninas vias de reconhecimento.
E, mais uma vez, a sabedoria de Ramana Maharshi flui com muita precisão, quando ele diz que todos os grandes reis e estadistas, de tempos passados e de agora, sempre lutaram pelo poder, tentando governar outros, quando bem no seu íntimo não conseguem governar a si mesmos.
Segundo Ramana, o verdadeiro poder pertence somente àquele que sabe governar a si mesmo, seguro de que aquilo que não está dentro de si, não pode vir de fora.
De forma semelhante, os mantras só podem ser considerados poderosos quando vibram de encontro ao verdadeiro poder já instalado do lado de dentro do ser. Caso contrário, não passam de superstições que exacerbam ainda mais a ignorância, a intolerância e o preconceito.
Por um ângulo mais pessoal, penso que falar sobre poderes que racionalmente beiram a ficção sempre confere um ar de mistério e de descrença em relação a algumas práticas do Yoga, incluindo as mântricas.
Ao mesmo tempo, essa tendência não traz nenhuma informação nova e, a longo prazo, somente serve para afastar as pessoas lúcidas e inteligentes, que buscam o Yoga para descobrir poderes mais "simplezinhos", como este aqui:
Se conhecer melhor para viver melhor, respeitando e convivendo pacificamente com todos os demais seres e a natureza.
Se pudéssemos viabilizar apenas essa realidade, esse seria, sem dúvida, o maior e mais poderoso de todos os poderes imagináveis, pois ao invés de celebrarmos os supostos milagres advindos dos poderes mântricos, celebraríamos apenas uma vida mais justa e feliz para todos.
Nas palavras sempre lúcidas do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh:
"Milagre não é andar sobre as águas ou nas nuvens, mas dar cada passo consciente".






